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A história deste projeto sempre nos colocou diante de grandes desafios. Quantas vezes nos perguntamos se o que estávamos fazendo era mesmo possível! Ouvíamos que era pouco provável que o Mestres da Obra pudesse se sustentar, encontrar espaços para a ação e parceiros que comprassem a ideia de implantar ateliês de arte em canteiros de obras. Mesmo assim, encaramos inúmeras reuniões, de onde saíamos sem ter tido tempo nem sequer de tomar o café que seria servido.
A existência desse projeto, hoje OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) Mestres da Obra, é resultado de muita persistência e fé, e graças a essa enorme força de vontade, hoje somos uma história que nasce e renasce cada vez mais viva nos muitos canteiros de obras por onde passamos.
No início, tanto a sustentabilidade financeira do projeto quanto sua metodologia pareciam duvidosas para os que tomavam contato com a proposta, mas uma pontinha de encantamento era sempre percebida, e esse foi nosso norte, o caminho para que insistíssemos em encontrar os parceiros que queriam ver “aquilo” acontecer.
Dúvidas são sempre uma constante em processos que exploram o universo da educação livre. Talvez no fundo elas sejam o motor dessas práticas existentes nas relações de troca entre educadores e educandos, práticas essas que rompem a lógica da forma tradicional e ultrapassada de educar, que prevê um fornecedor do conhecimento (professor) e alguém que simplesmente o absorve (aluno).
É difícil dizer por quantos caminhos de reflexão enveredamos no cotidiano do Mestres da Obra, frentes completamente distintas que terminaram quase sempre em mais questionamentos. Essas incertezas se dissolveram, na maioria das vezes, devido à compreensão de que nossa prática caminhava no sentido certo, guiada por muitas forças, sentidos, sinais e significados que de maneira alguma controlávamos por completo e que podiam ser até um movimento composto por elementos que nem sequer percebíamos.
Enfim, existe a consciência de que essa prática não é refém da lógica do mundo das causas e efeitos, que ela rompe com as matrizes de funcionamento e propõe algo completamente novo em ambientes marcados pela repetição, pela hierarquia e pela meritocracia.
A pouca existência de receitas e modelos nos obrigou a criar uma história de trabalho de educação e desenvolvimento humano muito particular, o que tornou constante a experimentação e o aprendizado. Todo o processo foi permeado por erros, retornos, avanços temporários, reflexões e uma imensa satisfação a cada passo acertado, e a união disso tudo marcou os momentos de amadurecimento da prática.
E tudo começou quando dois jovens de vinte e poucos anos, somamos nossa experiência (Arthur atuava como arquiteto em uma construtora, e Daniel já era educador ambiental atuante) e nosso desejo por fazer coisas acontecerem. Assim, não demorou até percebermos o fato de que um canteiro de obras é um enorme ateliê, cheio de materiais interessantes e com pessoas que, mais do que ninguém, dominam a transformação desses materiais e, como qualquer outro indivíduo, também podem transformar suas ideias e seu modo de pensar.
Sem dúvida nenhuma, havia a vontade de unir arte e educação, e esse foi um grande estimulador da ideia quando ainda não existiam perspectivas mais amplas. O prazer na transformação dos materiais e na manipulação das texturas e formas foi muito importante para o nascimento do Mestres da Obra, e continua sendo nossa essência e alma, mesmo quando seu processo, hoje mais maduro, gera conteúdo artístico, e não mais apenas objetos de arte. Essa compreensão é importante para o entendimento de que existe nessa prática, de modo profundo, a energia da produção artística, da bancada de trabalho, do espaço de magia, do ateliê que transforma e projeta a criação, que funde elementos mentais e espirituais à racionalidade da manufatura, do material, e esse é, para aqueles que o experimentam com vontade, um processo de imenso prazer e de profundo significado de encontro com o ser interior. Existe nessa prática, como em qualquer processo pleno de arte, o contato com as marcas e histórias da vida, com as cicatrizes da alma.
O Mestres da Obra é uma prática que não tem controle, domínios ou propriedade. Não tem começo, meio e fim. É uma prática de educação e desenvolvimento humano em canteiros de obras. Em qualquer canteiro, sob qualquer formato, essa prática se faz verdade, bastam a intenção e a liberdade de reunir trabalhadores da construção civil e vivenciá-la, seja resultando em esculturas, fotografias, pinturas, dança, teatro, literatura ou qualquer outra forma de expressão livre, como uma roda de conversa. É nesse encontro de pessoas que o ateliê Mestres da Obra passa a existir, podendo sempre ser replicado em qualquer lugar, a qualquer tempo, para que sejam valorizados e mais bem aproveitados os saberes, os ferramentais e a criatividade.
Salve Gaudí, mestre catalão que tanto nos inspirou! Pelas entranhas da grande escultura Sagrada Família, enxergamos o ateliê canteiro de obras.
Salve a todos os trabalhadores da construção civil, artistas que constroem as paisagens urbanas com sua força de trabalho, seu suor e sua sabedoria.
 
ONG Mestres da Obra

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