Folha de São Paulo
27 de abril de 2005

Prisioneiro da Luz
por Gilberto Dimenstein

Ao visitar as celas da prisão, o operário Sérgio da Costa Almeida ficou especialmente intrigado cm as imagens do nascer do sol desenhadas nas paredes sujas. Daquelas imagens tirou a inspiração para sua primeira e até agora única obra de arte. “É estranha essa coisa de inspiração. Vai nascendo sabe lá de onde e, de repente, está bem na nossa frente.”

Migrante de Tutóia, uma cidade do interior do Maranhão, Sérgio mora há apenas dois meses em São Paulo e trabalha numa reforma do presídio feminino do Carandiru. Virou então uma espécie de cobaia de uma experiência intitulada “Mestres da Obra”, na qual operários são convidados, fora do horário de serviço, a fazer arte com restos de construção.

Guiados por um arte-educador, os operários conheceram as celas e discutiram em grupo as impressões que retiveram daquela incursão. Depois, foram apresentados a diferentes formas de expressão com material reciclado. “Não entendia direito por que aqueles desenhos do nascer do sol tinham chamado tanto a minha atenção.” Nas discussões em grupo, ia sentido, aos poucos, a relação entre a luz, representada pela alvorada, e a liberdade.

Os presos, afinal, têm um horário rígido para tomar sol e, depois, voltam para a cela, trancados entre a alvorada e o crepúsculo.

“Os corpos estão presos, mas a mente deles está solta, livre, imaginado o que bem entender.” Concluiu que era isso.

Escolhido o assunto – a relação entre a luz e a liberdade -, Sérgio começou a garimpar o material descartado da obra. Escolheu uma espessa tela que entremeava as grades de uma cela. Cortou-a em pedaços e transformou-a numa espécie de caixa, na qual instalou uma lâmpada.

Viu à sua frente surgir uma luminária. Apesar de presa, cercada pela tela, a luz consegue escapar, como a mente do habitante da cela que desenhou o nascer do sol. “Não sabia que podia criar uma peça de arte. É a minha grande descoberta nesta cidade.”

Talvez não estivesse retratando não só as dores de um preso mas, quem sabe, a vivência do migrante recém-chegado do Maranhão, sem amigos nem família, obrigado a morar numa cidade-dormitório nas redondezas de São Paulo. Juntam-se, nessa experiência, assim como na luminária, liberdade e prisão.

 

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